Gal Gadot aparece no recheio na edição mexicana e latina da revista GQ de outubro. Confira a tradução da entrevista que foi feita em São Paulo, no final de 2019, durante a sua passagem pela CCXP.

Além da Mulher-Maravilha

Nada melhor do que viajar para um país amazônico (antes dos tempos de confinamento) para encontrar com uma verdadeira guerreira. São Paulo foi o cenário de um bate-papo com Gal Gadot sobre feminismo, o sexismo que impera em Hollywood, igualdade de gênero e, obviamente, sobre o tão aguardado Mulher-Maravilha 1984.

Por Jesús Alberto Germán

São primeiros dias de dezembro de 2019 e os raios de sol batem com toda a força em São Paulo, uma cidade com uma vibe particular: os acordes da bossa nova se misturam às construções impressionantes, enquanto a alegria brasileira se faz sentir nas ruas e o vento que sopra nos faz pensar que a qualquer momento vamos dar de cara com o mar, mesmo que esteja há centenas de quilômetros. Quem vive no hemisfério norte tem uma associação na cabeça a respeito do mês de dezembro: frio, neve (em alguns casos) e árvore de natal ao pé da lareira. Nessas latitudes, tudo muda completamente. A decoração da estação deve dar conta do calor intenso que dá as boas-vindas ao verão.

A notícia de um vírus potencialmente contagioso em algumas partes da Ásia parecia distante para a América na época, uma preocupação que ainda não havia chegado até nós. O que era fato é que, naquela época, São Paulo havia se tornado o epicentro e ponto de encontro de milhares de fãs de quadrinhos, que vinham de diferentes cantos da nação sul-americana (e até de fora de suas fronteiras) para fazer parte da Comic-Con CCXP, que tinha nomes convocados como Margot Robbie, Henry Cavill e Mark Hamill.

Mas a cereja do bolo viria no último dia.

Meu encontro com a Mulher-Maravilha

A cidade está apenas começando a acordar do sono matinal de domingo. O carro que me leva direto ao Palácio Tangará (situado em uma extensa área verde em meio a toda a selva de asfalto) circula suavemente pelo trânsito de São Paulo, que tem uma das piores famas, mas desta vez, é exceção.

Assim que atravessamos o muro que separa a propriedade, tudo se torna opulência à nossa volta, enquanto no horizonte, aos poucos, começa a surgir o hotel que realmente faz jus ao nome. O veículo preto para e um homem abre a porta do lado em que estou sentado. “Bem-vindo“, ele me diz. Outro senhor, vestido com um terno preto, logo muda a conversa para a sua língua, o inglês: “Sr. Germán. Siga-me por aqui.” O contexto é imbatível: sinto-me imerso em um filme em que tenho como missão conhecer uma princesa cujo objetivo principal é resgatar o mundo de qualquer mal. E assim é.

Se por fora o hotel faz jus ao seu nome, por dentro é como pisar num verdadeiro palácio. Um elevador nos leva diretamente ao terceiro andar. “Está tudo pronto para a sua entrevista“, o homem de preto me diz e as expectativas aumentam. Um longo corredor com carpete vermelho se estende diante de nós, assim que as portas do elevador se abrem. O cavalheiro assume a liderança e eu o sigo. Caminhamos alguns metros e, de repente, ele para na frente de outra porta. “Um momento, por favor“, ele diz. Ele abre lentamente a porta e fecha após entrar. Tenho pouco tempo para examinar as pinturas que decoram o longo corredor. “Pronto, Sr. Germán. A senhorita Gadot está esperando por você”, ele me garante.

A sala está perfeitamente iluminada graças a uma enorme janela que mostra a fascinante área verde que circunda o resort. A luz me cega por um momento. Tento focar minha visão e então a vejo vestida com um elegante vestido branco e seu cabelo preto contrastando com a roupa. Gal Gadot agradece o cartão-postal oferecido pelo terraço, mas assim que nos ouve entrar, ele vira a cabeça e sorri para nós.

Após as devidas apresentações, nos acomodamos ao redor de uma mesa. “Como o Brasil está te tratando?” Pergunto para quebrar um pouco o gelo. “Surpreendente. Gostaria de dizer que já o conheço bastante, mas não. Gostaria de sair ainda mais e curtir o dia lindo e a vitamina D que o sol nos dá“, ela responde entre risos.

Esta noite, Gal será a encarregada de encerrar a edição 2019 da Comic-Con de São Paulo, por isso, nos jornais e na televisão, sua visita ganha as manchetes. A expectativa por Mulher-Maravilha 1984 cresceu ao longo dos dias desde seu anúncio, principalmente após o sucesso do primeiro filme que chegou a ser considerado entre os prováveis ​​indicados ao Oscar. E, embora não tenha sido assim, ele acabou sendo um dos preferidos do público em 2017, dos amantes do Universo da DC e, claro, dos fãs de quadrinhos. “Esta sequência representou um desafio“, confessa a atriz israelense. “Foi um projeto muito ambicioso desde o início. Mesmo antes do início das filmagens, muitos nos disseram que não teríamos sucesso, mas Patty (Jenkins, a diretora) e eu respondíamos que conseguiríamos fazer isso. Enfrentar tal filme envolve uma longa preparação, especialmente de nível corporal. Depois disso, embarcamos em uma filmagem que durou oito meses sem descanso. Foi uma filmagem muito longa e, acima de tudo, muito física, porque vocês devem saber que uma das coisas que fizemos foi criar um novo estilo para as cenas de luta“, conta Gal. “Antes de iniciar a produção, Patty e eu fomos com nossos filhos ver o espetáculo do Cirque du Soleil e, no final, concluímos que era assim que queríamos que Diana lutasse dessa vez. E assim fizemos, trabalhamos com coreógrafos e evitamos CGI o máximo possível, embora isso significasse mais tempo e mais dificuldades. Por isso, foi uma filmagem longa que representou um desafio, sobretudo porque sou mãe de duas filhas e conciliar maternidade e trabalho às vezes é difícil.

Desde que Lynda Carter vestiu o traje icônico, a personagem tem sido uma referência para muitos. Mas agora que Gal assumiu o Laço da Verdade e, principalmente, por causa da época em que vivemos, a Mulher-Maravilha se estabeleceu como uma inspiração para crianças, mulheres e homens. Isso é algo que a atriz conhece muito bem. “Não levo isso na brincadeira, especialmente porque tenho filhas e entendo a importância de bons exemplos. Acho que agora, a herança da Mulher-Maravilha é muito importante e sou grata por isso. Para mim, é vital divulgar sua filosofia para o mundo e, de diversas maneiras, é o que procuro inspirar. Seja uma boa pessoa, seja positiva, ame os outros, faça o bem. Fico muito feliz que essa personagem tenha muito impacto nas pessoas.

Sobre feminismo e sexismo em Hollywood

Não é novidade para ninguém que Gal Gadot é um dos nomes que tem se envolvido com a luta feminista na Meca do Cinema e em todo o mundo, além de ter aderido às diversas causas pelas quais as mulheres levantaram suas vozes para exigirem equidade de condições de trabalho. “Acho que Hollywood não deixou de ser sexista. Acredito que enquanto continuarmos a falar deste problema, será porque não alcançamos o ponto de igualdade que desejamos. Será um longo caminho, sem dúvida, mas ao mesmo tempo está surgindo essa força de novas cineastas que fizeram filmes fenomenais recentemente, como Alma Har’el com O Preço do Talento ou Greta Gerwig; uma onda feminina que começou a encontrar seu próprio caminho em Hollywood e que teve sucesso. Estou muito feliz com esse aspecto, porque quanto mais elas forem, melhor será“, diz Gadot.

Mas o que falta para atingir esse ponto esperado? “Certo, agora você está entrando em um assunto sério. Vou te dizer o que é, pelo menos para mim. Pode ser difícil, mas considero que o mundo foi orquestrado e projetado para os homens, porque eles eram a principal força de trabalho. As mulheres começaram a trabalhar durante a Segunda Guerra Mundial, quando eles tiveram que ir para a guerra. Foi então que as mulheres começaram a se envolver com o círculo de trabalho, mas os homens já faziam isso há algum tempo“, reflete. “Não sou o tipo de mulher que aponta para os homens e os culpa por tudo, porque não acho que seja culpa de ninguém em particular; no entanto, acho que levará tempo para corrigir algo que se arrasta por anos e criar um bom ambiente para que as mulheres tenham oportunidades e salários iguais. Além disso, isso levará a questões como #MeToo, com o qual é importante que outras representantes do gênero feminino em posições importantes falem sobre o assunto. O trem está indo na direção certa e avançando, mas ainda há um longo caminho a percorrer“, continua. “O que podemos fazer para apoiar essa ideia?“, pergunto a ela. “Oh, é muito gentil da sua parte (risos). Primeiro, contrate mulheres e promova-as em seus espaços de trabalho. Dê-lhes as mesmas oportunidades que dariam aos homens e também as pague de forma justa.”

Alguns dias antes, durante apresentação de Aves de Rapina na CCXP, em São Paulo, Margot Robbie havia garantido que o feminismo não era só para mulheres, mas também para homens. Declaração que ganhou manchete em um país cujo presidente é caracterizado por seus comentários machistas. “Concordo totalmente com Margot“, diz Gadot. “Eu sempre disse que se você não é feminista, é machista (risos). Portanto, todo mundo deveria ser feminista. Recentemente, fui muito questionada sobre o empoderamento feminino e como este filme poderia contribuir para isso, e o que posso dizer é que Mulher-Maravilha 1984 significa muito para as mulheres, significa muito para mim, significa muito para as meninas, mas você não pode empoderar mulheres apenas para as mulheres; você precisa educar homens e meninos. Por isso, filmes como este são universais e para todos, porque estamos juntos nisso; não se trata de uma competição, mas sim de tudo para todos.

O tempo de conversa com Gal Gadot sobre cinema e feminismo passa rápido. E embora eu queira continuar me aprofundando no assunto, uma garota de sua equipe nos interrompe para me avisar que a atriz precisa ir embora, pois um grupo de jornalistas locais a espera no andar de baixo, com quem ela fará uma entrevista coletiva. Gal se despede com o mesmo sorriso que me cumprimentou. “Se tivesse a oportunidade, em quem você colocaria o Laço da Verdade?” Eu questiono enquanto levantamos de nossos assentos para aproveitar o último momento. “Talvez nos políticos e em certos líderes mundiais, para ver se estão fazendo a coisa certa para a humanidade. São tantos que não conseguiria escolher um em particular.” E termina com uma risada que enche a sala inteira.

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